História de Vida de Bernardo Pellegrini

Bernardo Pellegrini começou sua trajetória musical em Londrina-PR, nos anos 1970. Fez trilhas para o teatro e apresentou seu primeiro show, Mina D’Água, em 1976. Depois mudou-se para São Paulo para ser jornalista – mas acabou, mais do que nunca, mergulhando de cabeça na música. Tanto que no final da década de 1980 gravou seu primeiro disco: Humano Demais. Na década de 1990 viriam mais dois: Dinamite Pura e Quero Seu Endereço. Os 90’s também seriam o cenário para uma intensa agenda de peregrinações e shows, incluindo o espetáculo Big Bando do Cão Sem Dono, em que Bernardo se fez acompanhar por uma big band.

2010 marcaria seu retorno aos palcos após um hiato na carreira musical, e também o lançamento de seu quarto álbum: É isso que vai acontecer.  Desde então Bernardo tem vivido novamente uma vida de músico, se apresentando no circuito alternativo e emplacando algumas canções (a exemplo de Essa Mulher, gravada na voz de Simone Mazzer e Elza Soares).  

Sua verve musical está prestes a se renovar: em 2018, Bernardo Pellegrini tem Outros Planos.

Show Mina D’Água, em 1976.

Mina D’ Água

Um território onde tudo se pode inventar, onde tudo está para ser criado – essa é uma das características mais potentes da infância. Mas o mesmo poderia ser dito, também, sobre uma frente nova de colonização, sobre uma geografia onde a criação corre livre do peso das tradições. 

O garoto Bernardo Pellegrini nasceu em 1958 em Londrina, numa das primeiras levas de bebês da cidade, e passou a infância e a adolescência no norte do Paraná. Sua experiência como criança e jovem nesta área em colonização parece fundamental para compreender seus devires e desejos. Um lugar onde a velocidade e a vontade de criação conviviam com um ambiente marcadamente rural, ou até florestal – um cenário caipirosmopolita. 

Show Mina D’Água, em 1976.

Nascido em uma família altamente musical, Bernardo aprendeu a gostar de valsa com a mãe e dos cantores da Era de Ouro do Rádio com o pai. Mas a influência decisiva veio de seu irmão mais velho Clério, com quem aprendeu a tirar choros no violão ainda criança.

Jovem Guarda

No fim da década de 1960, um impacto: a Jovem Guarda arrebatou por completo o recém-adolescente Bernardo. E um pouco mais tarde, um vizinho que trazia vinis do exterior fez com que ele se vidrasse, muito cedo, na vanguarda do rock contracultural: Jimi Hendrix, Janis Joplin, Joe Cocker, Led Zeppelin. Bernardo começou então a compor suas próprias canções, apaixonado por essas novidades que chacoalhavam seu pensamento e comportamento. Nesse processo redescobriu também a canção popular brasileira renovada em nomes como Caetano, Gil, Os Mutantes, Jards Macalé. 

Trilhas sonoras para o teatro

Com cerca de quinze anos Bernardo se envolveu na cena teatral de Londrina, frequentando os festivais universitários e o circuito da boêmia artística que começava a fervilhar na cidade. Tanto que no início dos anos 1970 entrou para a companhia de teatro Meta, fez as trilhas sonoras de Arena Conta Tiradentes e Auto da Compadecida. Nessa época, precocemente, também teve seus primeiros experimentos como jornalista – ofício que, junto com a música, o acompanharia por toda a vida. 

Auto-da-compadecida

Vanguarda Londrina

Naquela Londrina dos anos 1970, uma revolução na música brasileira estava prestes a acontecer. Alguns jovens inquietos procuravam fundar um tipo de música nova, altamente original, de vanguarda. Música que aproximava alta erudição a informações populares e de cultura de massa. É o que Arrigo Barnabé chama de Pré-vanguarda Paulistana, ou Vanguarda Londrina. Em 1973, nomes como Itamar Assumpção, o próprio Arrigo, Paulinho Barnabé, Robinson Borba, Edvaldo Viecelli e Domingos Pellegrini (primo de Bernardo) apresentariam o espetáculo Na Boca do Bode, revelando talentos explosivos que entrariam para a história da música brasileira. 

Primeiro show: Mina D’Água

Mina D’Água, em 1976.

Bernardo acompanhava tudo isso de perto, frequentando as apresentações e se encontrando com toda essa geração. Entusiasmado, em 1976 resolveu montar também seu primeiro show: Mina D’Água. O espetáculo se integrava àquele movimento de jovens compositores da cidade. De acordo com uma matéria publicada na Folha de Londrina na época, se Na Boca do Bode foi o primeiro show dessa leva, Mina D’Água seria o sexto a mostrar experiências autorais protagonizadas por londrinenses.

Mina D’Água, em 1976.

Mina D’Água apresentou composições de Bernardo e de alguns parceiros, e foi acompanhado pelo Grupo Rinha, companhia da qual ele fazia parte. O show mostrou ao público sua tentativa de compor um som original, que sintetizasse de forma nova toda a riqueza musical que ele acumulou nas primeiras décadas de sua vida, vivendo em uma cidade que crescia e se agitava com criadores radicais. Segundo uma crítica publicada em 1976 no jornal Panorama, “Os ritmos de Mina D’Água são bastante variados, com acalantos, sambas, baladas, jazz, rock e, inclusive, pesquisa, como a música Passe Bem”. Uma tentativa de fundir influências múltiplas no formato da canção. Uma experiência definidora que Bernardo amadureceria nas décadas seguintes.

Mina D’Água, em 1976.

Humano Demais

No fim dos anos 1970 Bernardo Pellegrini se muda para São Paulo. É levado para lá por seus colegas-mestres jornalistas, uma geração que revolucionou o jornalismo brasileiro na revista Realidade – caras como Hamilton Almeida Filho, Narciso Kalili, Myltainho, entre outros, que de passagem por Londrina acabam se tornando amigos de Bernardo. Em SP ele trabalha como jornalista junto dessa turma e também em diversos órgãos da grande imprensa.

Humano Demais

Mas a música nunca sai de cena, e Bernardo jamais deixa de compor. São Paulo o faz reencontrar a turma da Vanguarda Londrina, que agora agita a cena musical nas apresentações do Lira Paulistana. É um período de intensas descobertas, experiências e amadurecimento musical. 

Bernardo conhece Roberto Freire

Também é na década de 1980 que Bernardo tem um encontro fundamental em sua vida. Ele conhece e se torna um grande amigo do psicanalista e escritor Roberto Freire. Com Freire aprende tudo sobre somaterapia, e se aventura intensamente nesse universo da terapia corporal e seus desígnios anti-fascistas. Dessa experiência nasce o livro Almanaque do Amor, que ele escreve em parceria com a jornalista Maria Angélica Abramo. Na mesma época, Bernardo ministra oficinas formativas em que cruza a experiência da soma ao processo de criação jornalística.

Almanaque do Amor

A verve anarquista de Freire o apresentaria, inclusive, a uma forma de trabalhar e realizar seus projetos. Um jeito meio punk, independente, às próprias custas S/A. Talvez esse modo de viver e de produzir tenha sido fundamental para que ele desse à luz seu primeiro álbum: Humano Demais, que é lançado no ano de 1990.

Humano Demais

Por um lado, Humano Demais foi possível graças às tecnologias digitais de gravação, novidades que barateavam os custos. Por outro, contou com uma intensa colaboração de amigos e parceiros de Bernardo, todos empenhados em fazer o álbum virar. 

Humano Demais foi gravado em Londrina

Humano Demais foi gravado em Londrina e alterna momentos espirituais, quase esotéricos (como na faixa Ameríndia), com canções de um coloquialismo despojado (como Risque). Na maior parte do tempo o repertório conjuga esses dois caminhos em uma mesma canção (como na faixa-título Humano Demais e em Lírio Branco, uma inusitada versão em valsa para um hit de Laurie Anderson). Há também espaço para experiências atonais e concretistas (como em Borboleta), o que reflete a vivência de Bernardo junto à Vanguarda Londrina. 

Mas Humano Demais não se resume às suas influências; o disco tem uma personalidade forte, oitentista, marcada por sintetizadores e baladas bastante singulares. O álbum é revelador de um momento importante na trajetória de Bernardo – nele o flagramos indo, cada vez mais, ao encontro de sua própria sonoridade. 

Nasce um Cão Sem Dono

Foi no trânsito entre São Paulo e Londrina que surgiu O Bando do Cão Sem Dono. Mais do que simplesmente a banda que acompanharia Bernardo Pellegrini, o Bando funcionava como um coletivo de contornos anarquistas, uma livre associação de pessoas interessadas em criar e trabalhar juntas, dispostas a batalhar por uma sobrevivência artística independente. Foi nesse início da década de 1990, com o Bando, que Bernardo estreitou parceria com nomes que o acompanhariam em grande parte de sua trajetória, como o baterista Eduardo Batistella e o multi-instrumentista Marco Scolari.

Bando do C~çao sem Dono

Neste início dos 90’s, Bernardo se distanciava um pouco do jornalismo para investir toda sua potência criativa na música. Com o Bando do Cão Sem Dono, gravou, produziu e lançou a fita K7 Iluminações.  O repertório desse trabalho seria ampliado, melhorado e gravado com mais qualidade, dando origem ao disco Dinamite Pura, lançado em CD no ano de 1994. Gravado em Londrina, o álbum contou com mais de 40 participações, mobilizando uma rede criativa de artistas, músicos e poetas. O Bando do Cão Sem Dono mostrava sua capacidade de produzir na raça, de forma colaborativa.

“Dinamite Pura” ganha edição em vinil — Folha de Londrina

Dinamite Pura

 Em Dinamite Pura, Bernardo Pellegrini encontra uma linguagem nova, apostando em arranjos mais ligados à estética do blues e do jazz. Sobrevivem ainda alguns elementos característicos da Vanguarda Londrina, como os vocais cênicos da Rosa, os teclados e o baixo atonais de Sidney Giovenazzi (ex-Patife Band). Mas Dinamite Pura é um disco mais humorado do que o primeiro trabalho de Bernardo. Muitas canções apresentam letras com jogos ágeis de palavras, sacadas leminskianas. Até mesmo os momentos espirituais são mais humorados (como em Axé, que lembra Itamar Assumpção). Em geral as músicas têm uma pegada mais urbana, noturna. Mas há também canções de grande inventividade e que destoam do conjunto, como Gauguin no Tahiti, uma canção folk, caipiresca, mas com um arranjo inesperado, que conta com tímpanos na percussão.

Vinte anos de “Dinamite Pura” — Folha de Londrina

Apresentações nos SESCs

Após o lançamento de Dinamite Pura, Bernardo Pellegrini e O Bando do Cão Sem Dono acabam partindo para São Paulo, onde moram todos juntos. Fazem inúmeros shows na noite paulistana e compõem um circuito de apresentações nos SESCs de todo o estado. 

Cão de Rua

A vida paulistana insere Bernardo Pellegrini em uma geração de músicos que, naqueles meados dos anos 1990, buscavam uma reformulação para a MPB – Zeca Balero, Chico César, Lenine. Bernardo e o Bando se apresentam em bares, casas de shows e instituições culturais que estavam sendo o palco para todos estes e outros novos nomes. 

Vida Paulistana

Contratação pela Prefeitura de São Paulo

Neste período o grupo é contratado pela Prefeitura de São Paulo para realizar uma série de apresentações nas ruas da cidade. É o projeto Arte nas Ruas. Apenas em 1996 são mais de 30 shows em espaços paulistanos super tradicionais como o Largo do Arouche, Vale do Anhangabaú, Praça da Sé, Praça da República, Biblioteca Mário de Andrade, além do já clássico cruzamento da Ipiranga com a Avenida São João. A rua é um laboratório intensivo onde Bernardo e o Bando aprendem muito sobre palco, público, performance. E é neste ambiente quente das apresentações, aos olhos da plateia, que aos poucos eles vão desenvolvendo e mostrando um repertório novo.

Ainda em 1996, Bernardo é premiado no Festival de Música de Londrina, no 3º Concurso e Mostra de Música Criativa. A obra vencedora é Game, um poema sonoro gravado com Roberto Freire e que consta no repertório do álbum Dinamite Pura. 

Quero Seu Endereço

Shows em Sampa

Após o intenso período de shows em São Paulo, momento exuberante de criatividade, Bernardo aparece com um repertório inteiramente novo. Essas músicas novas compõem o show Suíte Suja, que ele apresenta algumas vezes. O repertório deste espetáculo dá origem ao seu terceiro álbum: Quero Seu Endereço, lançado em 1998 pelo selo Dabliú. 

Neste disco Bernardo parece encontrar definitivamente uma linguagem bastante pessoal, chegando à síntese de suas influências, algo que ele buscava desde o início de sua trajetória. Como no álbum anterior, Quero Seu Endereço passeia pelo jazz e pelo blues sem abrir mão da experimentação. Mas há uma potente aparição de diversos gêneros de música brasileira, como o baião e o samba.

“Ondas de criatividade vêm do Paraná.

À época do lançamento de Quero Seu Endereço, o crítico musical Luís Antonio Giron escreveu: “Ondas de criatividade vêm do Paraná. Gravado em Londrina, o CD comporta surpresas acima da média. O projeto do violonista Bernardo Pellegrini é criar música fora da padronização do gosto. Une-se a bons músicos locais para apresentar um cancioneiro respeitável. Composições como Quero Seu Endereço, Noite de Longos Punhais e Os Dias credenciam o CD como um dos mais criativos do momento. É raro ver surgir um autor de peso”.

Festival Internacional de Londrina

Com o repertório de Quero Seu Endereço, Bernardo entra novamente no circuito de shows paulistanos e se apresenta ao lado de grandes nomes como Jorge Mautner e Nelson Jacobina, Roberto Sion e Toninho Ferraghuti, Paulo Freire e Tonho Penhasco. Também faz uma apresentação histórica em Londrina, no Festival Internacional de Londrina junto de Paulo Moura, Itamar Assumpção, Cauby Peixoto, Ângela Maria, entre outros. 

Quero seu Endereço

Pra fechar o milênio, em 1999, Bernardo e o Bando do Cão Sem Dono organizam o Cabarezinho, evento multimídia que ocupou de forma artística um antigo barracão de café em Londrina. O evento contou com espetáculos teatrais, exposições de artistas plásticos e shows com parceiros musicais de Bernardo como Natália Mallo, Gigante Brazil, e os irmãos Rubens e Beto Nardo.

Bando do cão sem dono

Big Bando do Cão Sem Dono

No ano de 2000, Bernardo faz um dos shows mais emblemáticos de sua trajetória. Ele se une ao maestro Vitor Gorni para montar o Big Bando do Cão Sem Dono, uma autêntica big band que executa em novos arranjos uma série de composições suas. Algumas músicas deste show fazem parte do disco Quero Seu Endereço, mas a grande maioria delas é inédita. Com o Big Bando Bernardo revela ao público boas surpresas como Nonsense e Açucena (com o poeta Ademir Assunção) e revisita clássicos como Olha (com Maurício Arruda Mendonça) e a bem humorada Homem é Bom. Um trabalho maduro, com excelentes músicos e arranjos, e que é uma ótima porta de entrada para se conhecer a musicalidade de Bernardo.

Eduardo Batistella

Alguns anos depois, em 2005, Bernardo Pellegrini produz o DVD Talvez Pode Ser Quem Sabe, de Eduardo Batistella, um grande parceiro e baterista talentoso. Neste trabalho também participa executando sua composição Se liga na Manobra.

Eduardo Batistela

Secretário Municipal de Cultura em Londrina

Depois destas experiências, Bernardo deixa um pouco de lado as gravações, ensaios e apresentações musicais e se concentra em outras atividades. Trabalha como jornalista, mas, principalmente, se envolve na elaboração de políticas culturais. Sua experiência de produtor cultural independente ganha nova escala, e durante certo tempo atua como Secretário Municipal de Cultura em Londrina. A música não o abandona nunca – o período é de redefinição de sonoridade e de muitas composições novas. Trabalhos que ficariam na gaveta aguardando para serem amplificados.

Bernardo Pellegrini no Folhacast — Folha de Londrina

É isso que vai acontecer

É Isso que Vai Acontecer

Em 2010, Bernardo Pellegrini retoma sua carreira musical com uma mudança marcante. Lança um novo álbum: É isso que Vai Acontecer. O som é menos ruidoso, com arranjos sofisticados e novas investigações estéticas. As letras escapam do tom marginal dos trabalhos de juventude e, de forma geral, revelam um autor maduro, ainda que romanticamente embriagado pelas paixões e dissabores da vida.

Acompanhado de antigos parceiros e músicos novos, Bernardo traz à tona baladas de uma poesia cortante como Se eu Chorar eu Morro, Entre um outubro e outro, Olha e o bolero Kamasutra, com participação de Rubens e Beto Nardo. Vez ou outra o álbum também irrompe em momentos de maior intensidade, típicos de um cão sem dono, como na entusiasmante Carro Forte.

Virada Cultural, retornando a São Paulo

Depois do lançamento, Bernardo Pellegrini e O Bando do Cão Sem Dono embarcam em um novo circuito de shows, fazendo conhecer o álbum mais recente. Ainda em 2010 Bernardo participa da Virada Cultural, retornando a São Paulo para mostrar ao público sua nova fase.  Em seguida, com uma formação mais enxuta, o repertório do disco ganha as estradas no show intitulado Anotações para um novo romance, que também traz algumas composições inéditas.

Essa Mulher gravada por Simone Mazzer e Elza Soares

Album sensacional

O que se segue é um Bernardo dedicado quase que exclusivamente à música. Além de compor e tocar, atua também como produtor do álbum Sensacional!, de Myltainho (o jornalista da Realidade que se revelava um músico tardio e cujo disco foi lançado postumamente, em 2014). Ao mesmo tempo, o trabalho autoral de Bernardo ganha um público mais amplo a partir da gravação de Essa Mulher, uma composição sua gravada por Simone Mazzer e Elza Soares. E, desde então, Bernardo passa a tocar em um circuito de bares e espaços alternativos, afiando suas novas músicas para entrar, novamente, de cabeça em um novo trabalho.

Lançamento de clipe inédito — Folha de Londrina

Para 2018, Bernardo Pellegrini tem Outros Planos.